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    Bequimão de corpo inteiro
    José Louzeiro

    A biografia foi sempre um gênero literário atraente, útil, necessário. Seus cultores, ontem como hoje, parecem apaixonados pela interminável aventura humana, sejam os personagens indesejáveis, sórdidos ou os mais nobres habitantes deste planeta, de tantas maravilhas da natureza e de algumas surpresas na forma de tsunamis.

    Dizem as pesquisas que as biografias, hoje, são até mais procuradas nas livrarias que os romances policiais e de aventuras. Que bom! Significa que a “vida alheia” continua em alta na curiosidade dos leitores de todas as idades.

    Quem não tem curiosidade de saber, por exemplo, se Beethoven era ou não generoso com suas empregadas domésticas, se Napoleão era ou não maníaco depressivo e se São Francisco tinha ou não tinha alma de pássaro?

    Quando garoto, aluno do Colégio São Luís, do inesquecível professor Luís Rego, ao chegar à quarta série ginasial ganhei um presente, dado por Marita, filha de Maria Freitas, que guardo até hoje: a biografia de Abraham Lincoln, escrita pelo competente Emil Ludwig que, também já escrevera sobre Bismarck, Goethe (dois volumes, cada um com mais de 400 páginas); Guilherme II, Hindenburg, Napoleão, Schleimann o buscador de ouro: “Leaders da Europa”, Roosevelt e teria sido convidado para escrever a respeito de Getúlio Vargas, cujo projeto não sei se chegou a concretizar-se.

    Agora, desta nossa São Luís de tantos talentos , eis que surge um biógrafo de longo curso: o escritor, historiador, professor universitário, jurista emérito Milson Coutinho, que conheci, ano passado, durante visita que fiz ao presidente Sarney, na sua residência do Calhau.

    O trabalho que Milson Coutinho realizou, nas folgas de suas tarefas como presidente do Tribunal de Justiça do Maranhão, biênio 2004/2005, é coisa que somente o maranhense determinado e afeito ao lavoro é capaz de realizar. No seu livro “A Revolta de Bequimão”, o herói coloca-se de pé e podemos vê-lo de corpo inteiro, bem diferente das aulas de História, apresentado num retratinho 3×4.

    Milson lembra em boa hora que, “na luta pela liberdade no Continente Americano, Manuel Beckman se antecipou a Jefferson, Tiradentes e Bolívar”, coisa maravilhosa essa que poucos jovens maranhenses sabem e a grande maioria dos brasileiros desconhece.

    Lê-se a biografia elaborada por Milson como quem lê um emocionante romance, desses que a gente vai ficando preocupado quando se aproximam as últimas páginas e temos vontade de recorrer às primeiras.

    “A Revolta de Bequimão”, como os maranhenses apelidaram é simplesmente admirável e bem que merecia prêmios nacionais de literatura, caso este país já estivesse culturalmente avançado, como se espera que esteja, a partir de 2005, antes que perca, definitivamente, o trem da História.

    Não basta produzir soja em abundância e muito menos que as montadoras de veículos estejam a despejar milhares de carros nas ruas já atulhadas de tantas latas sobre rodas. Também, não adianta ter o melhor futebol e o carnaval mais desbundado e rebolante de todo o hemisfério. É preciso que haja cultura mesclada ao tempero da erudição, para que não sejamos enquadrados como simples exportadores de produtos primários.

    No seu meticuloso trabalho, Milson Coutinho nos mostra que toda a luta de Beckman e do seu irmão Tomás desenvolveu-se numa época – a partir de 1600 – quando a coroa portuguesa, pressionada pela Espanha, elevava arbitrariamente os impostos, ao mesmo tempo em que a corrupção – tal qual acontece hoje – contava com fanáticos adeptos da própria fidalguia. O governador Francisco de Sá, por exemplo, chegou a formar quadrilha para surrupiar mercadorias, sendo seus parceiros principais o assentista Paschoal Jansen e mais adiante o esperto André Pinheiro que Chico Sá transformaria em capitão-mor do Gurupá.

    “A Revolta de Bequimão” é livro para ser lido, relido e muito bem guardado. Ao lado da caterva de corruptos, e vendilhões do templo, pois muitos pertenciam às ordens religiosas, Beckman procurava equilibrar-se politicamente, expondo seus princípios filosóficos que já incluíam, naqueles tempos, direitos iguais para todos, “mesmo para aqueles que trajavam o algodão grosseiro e cuja pobreza, nem por isso, era impedimento legal para aspirarem aos foros e nobreza de cidadãos”…

    A publicação do trabalho de Milson Coutinho, pelo Instituto GEIA, é de extraordinária importância pois nos leva a conhecer o primeiro grande herói da independência brasileira; aquele que lutou pelos direitos humanos numa época (Século XVII) em que a prevalência era da irracionalidade governamental, substanciada pela hipocrisia das ordens religiosas que se antepunham aos princípios de uma sociedade livre e humanizada, como propunham Beckman e seu irmão Tomás, poeta e, obviamente sonhador!

    Que pena que os importantes livros lançados pelo Instituto GEIA não estejam chegando às livrarias do Rio de Janeiro e de São Paulo. Faz-se necessária uma ação do governo para que essa falha seja corrigida.
    Artigo publicado no jornal O Estado do Maranhão, em 30/01/05.

    

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