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    Convite para encontrar o herói
    Sebastião Moreira Duarte

    Manuel Beckman, Manuel Bequimão. Tenho por esse nome um apego que vem de meus tempos de menino. Era o tempo em que Olavo Bilac nos recomendava amar com fé e orgulho a pátria em que nascemos e, entre aulas de sono e latim, íamos aprendendo a traduzir: Dulce et decorum est pro pátria mori – é belo e doce dar a vida pela pátria.

    Era o tempo, também, em que colecionávamos últimas palavras: de Nero, de Isabel de Inglaterra, de Pascal, de Goethe, de Álvares de Azevedo. As últimas palavras de Manuel Beckman, “pelo Maranhão, morro feliz!”, me soavam como as únicas ditas com sinceridade indubitável, nessa pátria em que – depois é que fui contatando – sempre deixa dúvidas qualquer confissão mais ou menos arrebatada de amor à pátria.

    Por essa época, o Maranhão era para mim um destino impensável, uma província tão longínqua como a Taprobana para Camões ou para meu amigo Sérgio Brito. O Bequimão, no entanto – assim aprendi a chamá-lo depois, carinhosamente, como todos os maranhenses – já, desde antes do Maranhão, me deixava convencido que o Brasil seria uma grande potência , medida pela grandeza de seus filhos.

    Nem mesmo quando, numa das avenidas de São Luís, imaginaram uma estátua do Bequimão para depois o converterem na vulgaridade de um Roque Santeiro telenovélico – nem mesmo então diminui em mim o respeito caloroso por nosso herói-protomártir, espécime raro de político em sua mais límpida pureza.

    Foi com o espírito assim voltado a lembranças tão devotas, que tive o prazer de acompanhar o segundo nascimento do livro de Milson Coutinho , A Revolta de Bequimão, que o Instituto GEIA está dando ao público às 19 horas da próxima terça-feira, dia 10 de agosto, na sede da Academia Maranhense de Letras, acontecimento para o qual eu me antecipo em convidar a todos os que me lêem nesta esquina de jornal.

    São, de uma só vez, três razões para nos rejubilarmos. Uma, o fato de vermos que o trabalho de um de nossos mais distinguidos historiadores está sendo republicados, já vinte anos passados da primeira edição. Não apenas nos fazia falta uma obra que ia se tornando rara, mas agora a temos renovada na forma e acrescida com achegas tomadas de documentos originais, alguns nunca anteriormente compulsados, que lhe dão timbre definitivo, obrigatório para os estudiosos da nossa História e para os que de modo geral, se interessam pelas coisas do Maranhão.

    Em segundo lugar, importa destacar a iniciativa do Instituto GEIA em patrocinar a edição desse livro, que é o quarto volume da Coleção Geia de Temas Maranhenses. Constituída por empresas privadas com atividade no Maranhão, essa entidade não governamental tem como objetivo contribuir, com a experiência de diversos líderes empresariais para que entidades de associações comunitárias alcancem seus objetivos com eficiência e qualidade. Consciente, todavia, do valor da obra impressa e da dificuldade de se publicarem livros em nosso ambiente, o Instituto tem também prestado inestimável serviço no campo editorial, através da mencionada Coleção, pela qual já lançou O Maranhão Histórico,de José Ribeiro do Amaral, Administrações Maranhenses, de Henrique Costa Fernandes, Brinquedos Encantados, de Albani Ramos, e agora A Revolta de Bequimão, de Milson Coutinho.

    Releva assinalar, por fim, que o livro a cujo lançamento abro o mias franco convite aos leitores desta folha será lançado na Academia Maranhense de Letras, no dia e hora exatos em que a nossa mais respeitada Casa de Cultura chega à casa dos 96 anos. De certa forma, estaremos repetindo o gesto com que, há quase um século, Antônio Lobo, Alfredo de Assis, Astolfo Marques, Barbosa de Godóis, Corrêa Araújo, Clodoaldo Freitas, Domingos Barbosa, Fran Pacheco, Godofredo Viana, Inácio Xavier de Carvalho,Ribeiro do Amaral e Vieira da Silva celebraram a liturgia consecratória dos nossos mais elevados valores.

    Três fatos que se reúnem para os comemorarmos albo lapillo, com uma pedrinha branca, como faziam os antigos romanos com as grandes efemérides cívicas.

    Artigo publicado no jornal Folha do Maranhão, em 06/08/05

    

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