PREFÁCIOCELEBRAÇÃO E CORDIALIDADE OU UMA TEORIA DA IMORTALIDADE *
José Chagas é um grande poeta do Maranhão, e dele já temos mais de uma vintena de livros, para felicidade de todos os que apreciam ver a poesia cultivada em timbres de consciente elevação e constante espontaneidade.
José Chagas e também um grande cronista – mais lido, o mais festejado e o demais longa permanência no jornalismo maranhense – e dessa permanência, que se estende a um meio século ininterrupto, resultaram, até hoje, apenas dois títulos recolhidos a página menos perecível: os livros Pedra de Assunto (Rio: São José, 1961) e As armas e os barões assinalados (São Luís: Sotaque Norte,2000). A simples distância na data em que essas duas obras vieram a lume evidencia certo esquecimento ou descaso editorial, que se pode repartir entre razões de origem e peso imponderáveis: o relativo desprestígio da crônica em relação ao poema; a notória escassez de interesse, na Província e no País, por se imprimir o que não constitua demanda imediata e digestão fácil no mundo livreiro; e a desimportância que o próprio Autor tem atribuído a seu trabalho na imprensa cotidiana, bastando saber que, desse material, ele quase não guardava sequer os originais.
Considero-me afortunado por incluir-me entre os que insistiram com o Poeta para que a obrado Cronista não ficasse em segundo plano. Apanhando o pouco que eu mesmo vinha guardando desde algum tempo, consegui, não sem argumentos de lenta e paciente persuasão, convence-lo a me entregar velhos papéis que se escondiam em suas gavetas, ao que depois somei recortes repassados por amigos e amigas seus, quando tomaram conhecimento de meu projeto. Tudo junto, inventei, por meados da década de 80, um “Catálogo das Crônicas de Chagas”, ordenado por ordem cronológica, “tema”, fonte e data da publicação. Acondicionei a coleta em quatro caixas (1m3, mais ou menos), e, tendo que me ausentar do País por mais largo período, entreguei-as ao Autor, recomendando-lhe não deixasse de preservar essa parte, também significativa, de seu patrimônio artístico. Depois de tudo, o que havíamos reunido estava longe de chegar à metade do que José Chagas até então escrevera para a imprensa de São Luís, à qual houve tempo em que ele oferecia duas contribuições diárias.
Passado mais de um lustro, entretanto, quando me propus retomar a iniciativa, fui sabedor que, tendo o Poeta mudado de endereço, “aquelas caixas” haviam como que desaparecido dentro de sua casa. Desencantadas, depois, por circunstância fortuita, certificavam que a brocados cupins havia danificado a quase totalidade dos papéis.
O prejuízo, em vez de causar desânimo, trouxe ignição para os nossos propósitos. Chagas mesmo – havíamos entrado na era do computador – deu-se à tarefa de guardar os próprios escritos e até a confiar-me alguns de seus inéditos. Creio mesmo que foi a partir daí que ele se rendeu de plena concordância à idéia de publicarmos algumas de suas crônicas. Quanto a mim, continuando o agrupamento inicial por “temas”, desde cedo percebi que tínhamos munição para organizar mais de uma série, dada a variedade de assuntos: Política e Políticos – de maior extensão e alacridade -, podendo subdividir-se por espaços (a Província. o País) e por épocas; Visão do Mundo; São Luís, sua gente e seus problemas; Letras e Literatos;Comemorações e Homenagens.
Tratava-se de uma classificação prévia. Antes de acharmos os documentos, fabricávamos “caixas de coleta”, o que nos parecia sugerir que a pesquisa seria conduzida a bom termo… embora estejamos, ainda, nos primeiros passos da caminhada.
Como para nos convencermos de que o projeto não estacionaria em seus propósitos, não esperamos expandir-se o pequeno universo manipulado. Do material que tínhamos, extrairíamos a sugestão de três títulos próximos e possíveis, voltado, um, à atualidade política brasileira; outro, a São Luís e seu piccolo mondo, e o último, à celebração da cordialidade.
Da primeira sugestão,dá-nos conta o livro Armas e os barões assinalados, a “seleção de crônicas de um tempo perverso”, conforme diz o subtítulo, e que foi, na ótica de José Chagas, o que vivemos com Fernando Henrique Cardoso (encarado, em mais de quatrocentas páginas, só no período que foi da candidatura do sociólogo ao término de seu primeiro mandato presidencial).
A alegre circunstância de estarmos agora comemorando os oitenta anos do Cronista leva a que, sem desligar-se de São Luís – a segunda sugestão, referida – adiantemo-nos a puxar o terceiro segmento temático. É o caso que o homenageado se antecipa em libar à escolhida e à sólida simpatia que, por mais de cinco décadas, lhe têm sido o pão e o vinho à mesa farta de sua convivência com os maranhenses. Justifica-se, assim, o título deste volume, obstado o caminho a conotações que aí não se incluem, em especial se se atenta ao subtítulo: “Crônicas de saudade e bem-querer”.
O título foi escolhido em simetria, e por oposição, a outro de Carlos Heitor Cony, Da arte de falar mal, publicado, na década de 60, pela Civilização Brasileira. Penso que não devo ocultar a razão, ou o motivo movente, por que, até mesmo contra alguma hesitação da parte do autor, teimei em conserva-lo, a despeito de equívocos que, de saída, pudesse provocar. Do tempo em que eu era apenas um leitor de José Chagas e não ainda um guardador de suas crônicas, lembro um comentário que ouvi de certa pessoa, que sou capaz de desenhar por inteira à minha frente, sem poder mais recordar seu nome:
- Chagas é um grande escritor, não há dúvida. Mas só sabe falar mal.
Não tive como, naquele momento, contribuir para que o meu amigo se refizesse de um mal-entendido fundamental. Ele não era e não seria o único em apontar isso, que, aliás, não é nenhum defeito, mas uma qualidade, se tirarmos os nove-fora de certos vícios e vicissitudes que perduram em nosso mundo e nossos tempos.
O problema é saber-se o que significa, em que sentido próprio e pleno, falar mal. Será falar mal clamar contra o mal e contra os maus, dizendo a verdade? Sendo assim, não deveríamos apedrejar todos os profetas bíblicos? Ou não se está fazendo um bem, quando se tem coragem, elevação moral e sinceridade para emprestar a palavra a tantos que dela não podem fazer uso, adstritos a razões rasteiras que a nossa razão não alcança, aí incluídas singelas, e prudentes estratégias de sobrevivência?
José Chagas não desconhece sua maestria na arte de falar mal. Ele mesmo proclama ter feito “muita raiva a prefeitos e até governadores, posto que [sua] palavra era incômoda, por nunca ter de sair senão do povo e para o povo”. Há até o caso de uma primeira-dama estadual que subtraía ao marido a leitura do jornal, no café da manhã, para não azedar o dia do governador, com as crônicas de José Chagas. Essa é uma parte da história. A outra é que, depois, os três se fizeram cordiais amigos, o primeiro mandante, sua esposa e Chagas, sem que este mudasse de opinião ou curvasse a cabeça.
Explica o Cronista: “Minha relação com São Luís [é] relação das mais autênticas e sinceras, porque é relação de amor e ódio: as duas faces do bem-querer. São Luís me aceita tal como eu sou e eu a aceito tal como ela é. Isto não quer dizer que estejamos obrigatoriamente de acordo em tudo, a toda hora. O caso é que amo tanto que chego às vezes a odiá-la e dizer dela cobras e lagartos. E todos sabemos que o ódio de quem ama só faz aumentar mais o amor, porque uma coisa é falar mal, por simples e deliberada condenação, outra é falar mal, visando o bem do que se ama”.
Mas, para quem duvidasse, aqui vai a comprovação de que Chagas é igualmente mestre na arte de bendizer. Nestas páginas, o Autor se concentra em indagar-se a si mesmo, para encontrar fatos e figuras e ontem e hoje – pequeno mutirão que é simples amostra de seus muitos amigos e companheiros do cotidiano – com os quais condividiu sonhos e afeiçoes, certificando a alguns sua amizade nordestino-sertaneja, sólida e serena, e a outros, já desaparecidos, oferecendo o ramalhete de sua saudade e sua ternura.
Desaparecidos, alguns amigos, mas todos vivos. Sabemos que no vasto curso de sua obra, José Chagas é sempre um domador do tempo, que a ele se dobra em mansa obediência, entregue ao sortilégio de suas palavras e à sua penetrante indagação das coisas idas e perdidas. Poeta-cronista tanto quanto cronista-poeta (já me ocorreu observar que, nestas duas palavras, importa a unificação expressa pelo hífen, não a ordem em que são escritas), ele nos faz ouvir, como leit-motiv, ao longo destes escritos, que sua visão da caducidade das coisas é, mais que tudo, um protesto contra o que é perecível, protesto que se traduz por uma Teoria da Imortalidade. Nada morre. Tudo continua aí, para outra contemplação. Não morremos. Encantamo-nos, para a sondagem do recôndito. “A morte não é verdade” – resume Chagas. E exemplifica: “Um amigo nunca morre por completo, pelo quanto dele fica em nós, como forma de vida a ser continuada, no campo da memória. E amizade passa então a alimentar-se tanto do que ele levou quanto do que deixou, pois a morte só extermina o lado material das pessoas, nunca a parte essencial de que são elas feitas. É possível que sejamos mais conteúdo do que continente.”
“Afirma-se comumente” – filosofa ainda o cronista – “que, no sempre misterioso processo do viver, vale muito mais a intensidade do que a duração. Eu acredito, no entanto, que haverá mais agudeza de espírito e mais enriquecimento humano, quando duração e intensidade funcionam conjuntamente, igualando-se e articulando-se na horizontalidade e na verticalidade dos procedimentos essenciais. Trata-se aí da simultaneidade do estar e do ser, como forma unitária de tempo e vida.”
E adiante: “Quase sempre, nas referências que fazemos à relação entre tempo e vida, ocorre um equívoco generalizado, em função de nossa ânsia pelo duradouro no campo efêmero. Todos nós vivemos preocupados em saber se temos tempo bastante para a vida, esquecidos de que o essencial é saber se temos vida suficiente para o tempo que nos é dado. Lamentamos os que tiveram muita vida e pouco tempo. Lamentamos ainda mais os que tiveram tempo em excesso e escassez de vida, e que por isso mesmo continuaram apenas durando, penosamente, ainda por longo período.”
É nesse ponto que se situa a diferença, sutil, mas que não é só jogo de palavras, entre aniversariar, pois existem pessoas que “sabem só o que o tempo faz com elas, não o que elas fazem com o tempo.[...] Aniversário é algo que tem de estar mais relacionado com a vida do que com o tempo”, que “tenha um significado maior no contexto essencial, pois, do contrário, por mais que alguém complete anos e mais anos, não se completa a si mesmo.” Afinal, o tempo é “apenas uma formulação abstrata e neutra, dentro da qual tudo de desgasta irremediavelmente.
Para concluir: “Não será, portanto, com base no tempo que se deve calcular a vida. Mede-se a vida pelo parâmetro da própria vida, pela dimensão essencial de sua densa verticalidade duração vazia. [...] É claro que fisicamente estamos, por força, enquadrados no tempo. Mas mentalmente, intelectualmente, espiritualmente, não. Nesse campo, nada é mensurável. O tempo não acompanha os que sabem pensar para além dele e que, desse modo, dele se libertam e vivem. E a vida, que tem muito a ver com o espírito, mais do que com o corpo, pois este é efêmero e aquele é eterno, a vida escapa aos limites do calendário, às convenções cronológicas. A vida é livre.”
Vida livre, transtemporal e transcendente ao tempo: tal é o verdadeiro sentido da imortalidade para aqueles que sabem construí-la nas contingências do próprio tempo, pela força de superação com que as obras do espírito se impõem à perecibilidade da matéria.
Noutras palavras, é para repetir Machado de Assis, desdizendo o Livro de Jô, repetido por José de Alencar, na frase final de Iracema: “Nem tudo passa sobre a terra”.
A Teoria da Imortalidade, segundo José Chagas, retoma a velha frase: “Per áspera as astra”, do tempo em que se conhecia o latim, para acrescentar que, entre as muitas maneiras de chegar aos astros, a mais suave é o cultivo das boas obras, e a principal das boas obras, a verdadeira amizade.
Por onde duas coisas se deduzem: uma, que, por suas crônicas, Chagas nega a conhecida formulação de Fernando Pessoa, para quem crônica é “literatura para aquele dia”. Outra – e mais importante – que José Chagas pode bem comemorar os muitos aniversários de sua imortalidade, consciente, como poucos, que soube ser amigo, cultivar amigos, professar e ensinar amizade.
* Sebastião Moreira Duarte SUMÁRIO Celebração da cordialidade ou uma Teoria da Imortalidade
Velha Crônica para hoje
Onde o céu tem
Saída do Labirinto
Nos caminhos da dor
Operação para uma posse
Governador-candidato
Eu, candidato
Aniversário de um amigo
Razões da minha candidatura
Cantada para dois
O anticandidato
A Folha e o Louco Necessário
Vitor Gonçalves e o rouxinol
A vingança de João do Vale
Ventos da gratidão
Há teatro no Maranhão
Eu e o festival
Ainda o iê-iê-iê
Legenda-3
Violões em serenata
A fé no femaco
Encontro marcado
Aniversariar e fazer anos
Almoço para adversário
Um amigo chamado Saudade
O eterno aniversariante
Boa esperança
A cidade e o Rio
A sina dos sinos, ou por quem os sinos sobram
Uma dívida paga
Nauro e o seu ouro
O contista dos Maranhões
A poesia de Lucinda
A missa-convite do Vidigal
O pintor Inaldo Goulart
Dagmar – pedra-viva
Canaã de graça
O poeta e o Visconde
Mata Roma e os velhos ritmos
Um pescador de poesia
Nós, os pescadores de sonhos
De boêmio a anjo, sem transição
O céu da estrela achada
O poeta entra a fama e o fumo
O doce Rio da Memória
Expectativa de trinta anos
Meu protesto
Dois poetas – uma festa
A cidade e seu antigo menino
O companheiro Amaral
Palavras a um cidadão
O boato da morte de JK
Um amigo é um amigo é um amigo
Um morto e o nosso indevido silêncio
Bar da saudade
A veracidade do Vera
Quando um amigo se faz memória
Um livreiro, um homem, uma memória
A morte não é verdade
Um santo morava com um anjo
Um bom sonho de paz
Uma vida merecida
Oitenta anos vividos a gosto
O canto e o encanto de Cecília
O festival na Ressurreição do Monsenhor
Setenta anos de juventude
A cura pela amizade
A grandeza de ser pequeno
Trinta anos de PH
Os centenários dos poetas vivos
Setembro, morte e vida
A espera, a colheita e os semeadores
Homenagem a Bernardo Coelho de Almeida
A Academia e seus aniversariantes
Retribuindo uma homenagem
Uma lagoa passada a limpo
Notas
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