Hoje é dia de ver, ouvir e falar em Latim
Ubiratan Teixeira
Um vetusto membro da Academia Maranhense de Letras, encarregado pelo Editor do meu Dicionário de Teatro (que finalmente será publicado graças à visão cultural e progressista do Dr. Jorge Murad e sua atenta editora Geia) para fazer a revisão acadêmica da obra, a certa altura de sua atenta catação de falhas filológicas e lingüísticas me chamou de burro em latim; ele, ex-seminarista, não admitiu que um bel em letras neo-latinas não soubesse formar o genitivo de uma determinada palavra. Com muito tato e em português popular fiz ver ao excelso desertor das fileiras clericais, que antes do lingüista e do filólogo existe na obra, o conhecimento do operário e o arqueólogo do teatro; e que este humilde bacharel em letras clássicas nunca foi além do elementar rosa-rosae, traumatizado que fora por Jesus Neves Ribeiro, seu primeiro professor de latim ainda no primeiro ano de ginásio que exigia que analisássemos a Catilinária, sem explicar pedagogicamente por que e para que eu era obrigado a estudar latim, uma “língua que ninguém mais falava”.
Mas não é sobre as controvérsias dessa etapa da publicação da obra que eu pretendo discutir – nem nunca terá o que discutir- mas sobre algo que está me inquietando como igreja.
Católico de tradição e agora por convicção, apesar dessa aversão inicial ao latim, que se transformou em bloqueio (o que lamento profundamente), acredito que o ritual da missa perdeu bastante de sua pompa e de seu mistério a partir do momento em que passou a ser celebrada no vernáculo. A missa em latim, para mim, era mais austera e mais completa no seu ritual: desde o comportamento dos fiéis, os varões quase sempre de terno e as mulheres em roupas sóbrias a cabeça coberta por um discreto véu, o sacerdote reverentemente de frente para o sacrário, o clima de comunhão nos gestos e na participação da assembléia. Não tenho nada contra o cavaquinho e a cuíca nem discrimino o funk; mas a missa ao som de um órgão é mais celestial. Celebrada em português e os fiéis participando, a democratização foi radical; agora sabe-se por onde vamos- mas nos faltou nível de educação e de cultura para entender a abertura. Donde os homens já freqüentam a cerimônia de bermudas e camiseta, as mulheres seminuas, com suas blusinhas de alcinha, barriga de fora seios soltos de forma quando o celebrante é um “gato”, não raro elas ficam de faróis ligados o tempo inteiro, sobretudo quando avançam sensualmente para receber a comunhão.
Jesus como ser humano, devia ter tesão; o “crescei e multiplicai-vos” é bíblico, mas vamos com calma: tudo no seu espaço adequado.
As mudanças feitas por João XXII foram saudáveis, a revolução de Paulo VI oportuna, a Teologia da libertação nos deu um Jesus mais fraterno e menos rancoroso. Mas fico matutando no que deva estar acontecendo com minha igreja nesse torvelinho de mudanças, que tipo de química está atuando sobre os evangelhos cristãos, quem são os cavaleiros do apocalipse que investem de laça em riste, sob que disfarce eles se manifestam, se a palavra tem munição bastante para encarar o avanço da tecnologia – ou se no chip Terabyte é que estão minha próxima etapa de santificação.
O ecumenismo é uma saudável prática cristã. Viajei, quando jovem ainda, na carroceria de um caminhão no final dos anos 50, durante quase uma semana por caminhos não existentes desta parte deste país, só para participar no interior de Pernambuco da missa do vaqueiro, que depois rodou o mundo inteiro num vinil de 33 rpm – só não fui para a África conhecer a Missa Luba porque meu fôlego não dava para atravessar o atlântico a nado, como faz agora aquele “congo” do comercial, para vir tomar uma cerveja do lado de cá. Mas fico agoniado quando vejo minha igreja definhando enquanto a dos outros vai crescendo em proporções geométricas.
É verdade que a quantidade não implica na qualidade, mas vivendo como vivemos numa sociedade capitalista, “Vale o quanto pesa”.
Ainda a questão Marista – o Colégio Marista Maranhense divulgou uma nota domingo passado, neste jornal, tentando desqualificar este cronista em razão da crônica de sexta-feira passada, 31 de dezembro, onde denunciei o gesto torpe e antieducacional da Escola em nosso Estado, ao desligar sumariamente quatro alunos dos mais aplicados e sem antecedentes disciplinar, muito pelo contrário, estudantes modelo, do seu quadro discente. Ubiratan Teixeira, nos seus cinqüenta e tantos anos de militância na imprensa maranhense, apesar do seu estilo freqüentemente virulento quando tem que denunciar atos covardes e criminosos como esse da direção do Colégio Marista, nunca cometeu injustiça, nem leviandade. Como educador, lecionando em colégios tradicionais desta capital, como Colégio São Luis, Rosa Castro, Ateneu Teixeira Mendes, Liceu Maranhense e durante os 25 anos de atividade à frente de vários setores da Televisão Educativa, sempre se destacou pelo talento de seus conhecimentos e se pautou por um comportamento ético e justo. A nota divulgada pela direção do Colégio mostra nas entrelinhas o seu ranço pedagógico e a incompetência de um Conselho Diretor para dirigir uma Instituição com a tradição de Educandário Modelo como é o Marista nesses oitenta anos de existência. O gesto truculento dessa diretoria merecia uma investigação severa e punitiva não só por parte do Conselho Estadual de Educação como da Promotoria de Educação. E, para encerrar o papo definitivamente, um conselho cristão a esses tiranetes que estão desumanizando a direção dos Maristas aqui, no Maranhão: leiam, entendendo os Evangelhos de Jesus Cristo e estudem sobretudo a pedagogia do castigo que se encontra em Jeremias.
Artigo publicado no jornal O Estado do Maranhão, em 07/01/05
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