Representantes da Academia Brasileira de Filologia acreditam que o texto do acordo precisa ser aperfeiçoado com urgência.
Três anos e sete meses. Este é o tempo que todos os brasileiros terão para se acostumar com as novas regras da ortografia.
Apesar da distância entre hoje e 1º de janeiro de 2013, quando as novas regras da reforma ortográfica entrarão em vigor, a movimentação para que a escrita da Língua Portuguesa seja padronizada já começou.
Recentemente, a Academia Brasileira de Letras, através do imortal Evanildo Bechara, lançou o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa(Volp) com as novas regras. Segundo o Ministério da Educação (MEC), responsável pela condução do acordo, o documento será o guia oficial da reforma ortográfica. Paralelo a isso, o MEC também garantiu que, a partir do ano que vem, o material didático distribuído às escolas públicas de todo o país já conterá as modificações. O problema, porém, é que o acordo não está agradando a todos.
Reunidos na FOLHA DIRIGIDA para falar sobre o acordo, cinco dos maiores especialistas em Língua Portuguesa do país demonstraram porque a discussão cerca das mudanças ainda tem um longo caminho a ser percorrido. Presidente de honra da Academia Brasileira de Filologia (Abrafil), o doutor em Letras Leodegário de Azevedo Filho explica porque a reforma ainda causa tanta polêmica no meio acadêmico.
“Já se criou uma polêmica com relação ao Volp, mas a opinião da Academia não é crítica com relação ao professor Bechara, um dos maiores conhecedores da Língua Portuguesa e integrante da própria Academia. O problema é a legislação que institucionaliza a reforma, que foi muito mal feita”, critica o professor.
REGULAMENTAÇÃO DA LEI É UM DOS CAMINHOS
Segundo ele, a reforma é necessária, mas precisa ser regulamentada. “A solução para acabar com as várias imperfeições do decreto que oficializou as mudanças na ortografia é a regulamentação deste texto. A partir daí, poderemos discutir as mudanças e acabar com os problemas incorporados pelo texto final”, comenta Leodegário.
Outro integrante da Academia, o professor Manoel Ribeiro elege um dos vilões da nova ortografia. “Se o vocábulo composto apresenta elementos de ligação, perde o hífen. Mas se for espécie botânica ou zoológica, o hífen será mantido.
Bico-de-papagaio(planta) mantém o hífen, porém bico de papagaio (calcificação óssea ou nariz adunco), não. Esta última norma criou uma separação entre os vocábulos, por isso dependeremos da interpretação textual para saber se o vocábulo leva hífen ou não. Os professores levarão muito tempo para explicarem isso aos alunos”, exemplifica.
Ainda segundo o acadêmico, as dificuldades para a padronização da escrita serão grandes caso a reforma seja mantida em sua forma atual. “A reforma ficou no meio do caminho. Os utentes da Língua Portuguesa enfrentarão dificuldades para entender e explicar muitas dessas normas. Esperamos, no entanto, que o objetivo principal seja atingido: uma unificação que poderá determinar o término de uma polêmica que chegava a 100 anos”, brinca o acadêmico, citando o tempo em que as modificações foram discutidas entre os diversos países que utilizam a Língua Portuguesa.
Professor da UERJ e também integrante da Abrafil, José Pereira da Silva é menos enfático nas críticas ao texto. “Acredito que este será um acordo bem sucedido, ao contrário das tentativas até hoje frustradas de unificação da nossa ortografia. Trata-se, porém, de um acordo. Portanto seria impossível que uma das partes ficasse inteiramente satisfeita com os resultados”, declara.
INTERFERÊNCIA NA GRAMÁTICA
O docente, porém, reconhece que o texto final do decreto que institucionaliza as mudanças está longe de ser perfeito. “Há situações irrelevantes para nós, brasileiros, mas relevantes para os outros, como é o caso da eliminação do hífen que separa a preposição ‘de’ do verbo ‘haver’. Há registros de exceção para o uso do hífen em palavras compostas de áreas específicas e há outros casos ainda. Mas acho irrelevante dar relevo a coisas irrelevantes”, destaca.
Outro professor da UERJ e integrante da Academia, Cláudio Cezar Henriques acredita que a reforma mexe em um assunto que não lhe diz respeito: a Gramática. “A principal crítica que eu faço ao texto da reforma é que ele faz uma série de intervenções que extrapolam a ortografia.
Ele decide, por xemplo, que uma palavra é ou não composta, quando quem deve fazer esta definição são os gramáticos, os estudiosos da morfologia, da formação de palavras”.
O professor cita um exemplo desta“intervenção”. “Na base 16, terceiro item, o texto diz que nas formações por sufixação apenas se emprega o hífen nos vocábulos terminados por sufixo de origem indígena, como -açu, -guaçu e -mirim. Ora, -açu, -guaçu e -mirim não são sufixos em nenhuma gramática da Língua Portuguesa, mas radicais”, afirma.
Presidente da Abrafil, Antônio Martins também acredita que muita coisa pode melhorar no texto da reforma. “Para evitar toda essa polêmica e as famigeradas exceções, que alimentam a dúvida na cabeça dos usuários da Língua, porque não se acaba logo com o hífen, por exemplo, como foi feito na Alemanha? Não há um escritor, um jornalista, que não tenha que recorrer ao dicionário para verificar se determinada palavra tem ou não o hífen”, destaca o filólogo. Ainda segundo ele, apenas se cair no gosto popular a reforma po derá, efetivamente,ser adotada como padrão. “Quem faz a Língua não é a elite, mas o povo. O escritor consagra a Língua, mas o povo incorpora através da linguagem. Não há Língua mais dissociada da expressão oral do que a inglesa. E ela não tem acentos. Não há uma regra, cada palavra é um casoà parte”, cita.
Pedro Vaz
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