Antônio Martins de Araújo

Quase pacificamente aceita por todos, parece ser crença geral que a coexistência tão próxima, tanto na Secretaria de Estado onde trabalhavam, como nos jornais do Rio de Janeiro em que Machado de Assis e Artur Azevedo colaboravam, fez com que o gênio daquele eclipsasse a recepção deste por parte do grande público. Como tentaremos demonstrar, isso é ledo e puro engano.

Usei o advérbio quase no parágrafo acima para insistir no fato de que, embora muito ligados por admiração e amizades-honradas, recíprocas e merecidas, cada um desses dois escritores brasileiros paralelamente foram imbatíveis nos gêneros literários para os quais eram vocacionados.

A sólida cultura literária cimentada pelo gênio do Cosme Velho na frequência diuturna aos clássicos da língua portuguesa nos herdou uma ficção sem jaça, cujas culminâncias reconhecidamente se encontram em seus contos e romances concebidos e editados naquela que se convencionou chamar de segunda frase de sua produção literária, para não falarmos dos lampejos prospectivos de seus impecáveis textos de críticas literária.

Quanto ao maranhense que, aos dezoito anos de idade, elegeu aquela que seria a Cidade Maravilhosa como seu segundo lar, espaço propício para sua fecunda existência, terra adotiva e mãe – geia de seus filhos, este trazia o germe da comédia nas veias, e, enquanto teve um alento de vida, não se cansou de escrever teatro, gênero literário em que seu Mestre (assim carinhosamente se referia ele a Machado) não foi tão bem aquinhoado.

Artur esbanjou seu talento desde os quinze anos de vida em sua província natal, e minha, a nascida francesa cidade de São Luis do Maranhão, em 1870, com a farsa mais encenada nos palcos de nosso país – Amor por anexins -, nas pegadas de O velho da hora, de Gil Vicente. Com certeza a grande maioria das cerca de cinco mil crônicas que editou em cerca de 45 periódicos girou em torno dos mistérios da arte de Talma, ora analisando o desempenho dos atores e das atrizes em cena, ora versando a tessitura das peças, enfim Artur respirava teatro por todos os poro. Cerca de duas dezenas de revistas-de-ano, gênero francês que adaptou ao gosto brasileiro.

Nos anos 80, eu lecionava no Colégio Santo Agostinho, mostrou-me certa aluna um postal impresso na Rússia, enviado por Machado de Assis a um tabelião amigo seu, que dizia mais ou menos assim: [Fulano], no dia dos teus anos, só te posso dizer que a vida é irmã da morte. Seu [Beltrano]. Não, nunca a vida será irmã da morte de pessoas como Artur e Machado. Pelos acontecimentos que lhes sucederam, tanto Machado quanto Artur talvez nem desconfiassem que eles seriam eternos, para glória e orgulho da brava nação brasileira.

Publicado no jornal Correio dos Municípios, março 2010.