Ubiratan Teixeira

Se o assunto é bom, por que não esticá-lo? Não é assim que fazem os editores de política quando um bom motivo se apresenta e eles ficam tecendo e retecendo o mote até o fôlego se esgotar? Ou os de polícia ao serem servidos por um crime cinematográfico sobre o qual eles deitam e rolam, inventam e reinventam? Ah, esta minha necessária e lúcida profissão que vive dos erros e dos acertos de tua existência, paciente leitor.

Já disse em crônica passada, e direi mais para frente em quantas forem necessárias e motivo para tanto me seja dado, que o Instituto Geia, na área da cultura está realizando, no momento o que órgão nenhum do Estado, em grau de pureza e perfeição sem precisar agredir as criaturas em sua volta, realizou até então – na área do disco, do documentário cinematográfico e do livro.

(Com sua atilada visão empresarial, sua capacidade rara de distinguir o falso do mentiroso e seu bem estruturado lastro de conhecimento teórico, Dr. Jorge Murad bem que poderia dar uma investida, agora, nas artes plásticas, promovendo uma exposição desta última fase de Lobato, que está com uma proposta ousada, madura e altamente técnica. Não aquele salãozinho doméstico para onde as pessoas se dirigem nas noites de abertura mais para se exibir e pelos comes-e-bebes que mesmo pelo conteúdo do fato: observação desnecessária, aliás, a quem tem sempre mostrado maturidade no trato com a coisa cultural. Um projeto que extrapolasse o local; uma amostra itinerante país afora, onde o próprio Lobato, como criterioso pedagogo que é, falaria não só de sua arte como dos nossos ícones nessa prodigiosa área da produção artística maranhense, de Flory Gama a Floriano Teixeira, passando por J. Figueiredo, Cadmo Silva, Antônio Almeida, Iêdo Saldanha, Pedro Paiva Filho, Ana Borges e Mondego, esse magnífico produtor de arte, no barro, que é Luís Carlos, as esculturas icônicas de Fransoufer, o desvario racional de Zé Jesus, a arte contida e profunda de Rosilan, os experimentos saudáveis de Marlene e todos os lúcidos recriadores nativos, desconhecidos por esse Brasil ignorante de nosso produto artístico). Mas, como este é um outro lúcido delírio, deixemos o sonho e voltemos à realidade presente.

Com o lançamento do Dicionário de Teatro, o Instituto Geia emplacou o sexto volume de seus editados, num projeto onde constam títulos do mais alto nível da história cultural do Maranhão tais como O Maranhão histórico, de Ribeiro do Amaral, Administrações Maranhenses de Henrique da Costa Fernandes, A Revolta de Bequimão, de Milson Coutinho, Brinquedos Encantados do fotógrafo Albany Ramos, maranhenses falando sobre o Maranhão, onde certamente esse necessário e abrangente Dicionário de Teatro, que trata da linguagem de uma arte milenar, de sua origem na velha Grécia até o último movimento revolucionário na Alemanha, deve ter sido um soluço na linha editorial da Entidade, que privilegia a divulgação de obras que falem sobre o Maranhão e nossa cultura. Mais dois volumes nessa linha de excelência no trato da cultura maranhense estão prontos, só esperando data oportuna para serem lançados; um na linha documentário, onde o texto inspirado e bem acabado acrescenta o que extrapola da fotografia precisa e bem elaborada sobre o Maranhão rural, despidos do conforto da modernidade revelando uma forma natural de vida e do prazer pelo modo de vida simples, com sua maneira ingênua de viver, crédulo, faltando pouco para ser edênico. É Maranhão um litoral de histórias e encantos, um documentário fotográfico de Felipe Goifman, com textos de Maurício Barros de Castro e Ronaldo Ribeiro.

A outra obra, essencialmente maranhense é do cirurgião dentista Éden do Carmo, natural de Arari, que entre a extração de um queixal, a obturação de uma cárie e o tratamento de um canal infeccionado, fisgava capadinho com isca de gongo e um voraz bagre-catinga com isca de sabão.

Sem se preocupar especificamente na construção de um livro, mas com o espírito do naturalista já o espicaçando , depois de milhares de pratadas de carapitangas, carambanjas, pescadas, camurins, mandubés, cabeças-gordas, jurupirangas e bagres, Éden decidiu ir documentando o prazer de sua gula antes que sua ictiofome e de seus semelhantes ribeirinhos acabasse com a fauna fluvial do Mearim – sem falar dos agressores do meio ambiente, desmatando, poluindo, assoreando esse que foi um dos rios mais importantes do eco-sistema hídrico do Maranhão. O documentário é precioso e raro. Éden do Carmo Soares relacionou mais de trezentos espécimens, na área pesquisada, entre as cidades de Bacabal e Arari. Mas o leitor desta obra não vai encontrar apenas um belo aquário de fotos perfeitas na sua função de documentário exato: a população piaba, por exemplo, comparece com seu charmoso e dignificante nome científico Astynax bimaculatus. E se o leitor não souber o que o autor quer dizer com um peixe multicuspidado é só ir ao glossário no final do volume que terá sua curiosidade satisfeita. E não só a história do rio é lembrada, seu flora merece atenção do autor e as várias formas de pesca são reveladas.

O livro do pescador/dentista/cientista Éden do Carmo, pela sua qualidade intrínseca, beleza das fotos e riqueza do texto é mais um ponto positivo no projeto editorial do Instituto Geia, que continua se esmerando, a cada obra que lança na qualidade gráfica das obras que publica. O Maranhão, finalmente está saindo da idade da pedra na área da editoração de livros.

artigo publicado no jornal O Estado do Maranhão, em 10/06/05