Jorge Murad

Por solidariedade ou por altruísmo, por espírito de grupo ou por motivação individual, a humanidade sempre recorreu a mecanismos de socorro aos mais necessitados. Não é por acaso que todas as religiões conhecidas identificaram na caridade a mais importante das virtudes. A tradição judaico-cristã sublimou essa prática como caminho mais curto para a salvação da alma. A sabedoria expressa no ditado “quem dá aos pobres, empresta a Deus” pressupõe uma espécie de mercado futuro da salvação espiritual, ou seja, cria um interesse real de lucro, no céu, para o investimento caritativo feito aqui, na terra. A caridade era ainda mais valorizada quando exercida anonimamente, só conhecida de Deus. Daí a existência de urnas, colocadas na entrada dos templos, onde os penitentes podiam depositar suas contribuições. Hoje, essa prática é impossível, pois as urnas são freqüentemente roubadas pelos que querem queimar etapas no processo de distribuição da caridade.

É evidente que a prática da filantropia, por motivos religiosos ou não, funcionou, historicamente, como importante fator de coesão social, seja como lenitivo à miséria absoluta, seja como redutor de tensões sociais. Com o passar do tempo, e à medida que os estados foram-se organizando e assumindo funções de comando em todos os níveis da convivência social, começaram a surgir políticas públicas assistencialistas e de atendimento aos direitos de cidadania. Principalmente nas sociedades onde floresceu o espírito comunitário e o sentimento de justiça social, pois não se tratava mais de atender aos necessitados de caridade pública ou individual, mas de uma tomada de consciência de que alguma coisa não estava funcionando satisfatoriamente como instrumento de aproximação social. Tratava-se, então, de provocar mudanças que eliminassem ou diminuíssem as discriminações dentro da sociedade. A este movimento de solidariedade social acorreram voluntários desejosos de contribuir, gratuitamente, para a melhoria da estrutura social em que viviam.

No Brasil, pelo caráter de sua colonização e pelo desenvolvimento de uma sociedade escravocrata, as distâncias sociais sempre foram muito grandes. Tudo muito diferente do que ocorrera, por exemplo, e na mesma época, nos Estados Unidos. Lá, o país foi colonizado por grupos religiosos fugidos da intolerância da Igreja rival majoritária e, portanto, movidos por intenso sentimento comunitário. Eram famílias decididas a fundar uma nova pátria e nela permanecer para sempre. Antes que o Estado se organizasse, essas famílias foram criando escolas, templos, elegendo autoridades locais e dando o rumo para uma sociedade participativa e democrática. Nesse tempo, o Brasil nem sequer conhecia o que em Portugal se denominava “família”. Os prelos para publicação de livros eram proibidos e nenhum navio estrangeiro podia trazer ou levar mercadorias de nossos portos e, muito menos, navegar em nossos rios. Era o obscurantismo completo a serviço da exploração da mão de obra escrava.

Fundamentalmente, essa estrutura social não mudou muito com a abolição da escravatura. Nem mesmo com a proclamação da República. Só depois de 30, com a urbanização e o caráter mais complexo da economia e da competição, passa o Estado, sob o comando de Vargas, a se organizar para atuar como árbitro dos conflitos sociais e como agente das mudanças econômicas. Em 1964, quando os militares assumiram o poder, imbuídos do conceito de que a força de um país dependia de seu “complexo industrial-militar”, cuidaram de aumentar a eficiência e a abrangência do Estado moldado por Vargas. Investimentos em atividades tipicamente privadas resultaram em um brutal endividamento interno e externo. A Informática passou a ser questão de Segurança Nacional, e o país ficou de fora de uma nova era de modernidadetecnológica. Dois choques no preço do petróleo (em l973 e l979) e uma elevação sem precedentes da taxa de juros americana tornaram inadministrável a nossa dívida e impraticável o nosso crescimento. Nova falência do Estado obriga os militares a passarem o poder para os civis.

Com a democracia, um novo tipo de associação amplia sua área de atuação no Brasil. São as organizações não-governamentais, que buscam, principalmente através de trabalho voluntário, melhorar as condições de vida de grupos sociais discriminados. Ao denominar de não-governamental a sua natureza e a sua forma de atuação, tais entidades pretendem deixar claro que querem ser eficientes como uma empresa privada, mas sem visar nenhum tipo de lucro, e que não querem se deixar contaminar pela burocracia, pelo clientelismo político, pelo corporativismo e pelo descaso com os resultados práticos da sua ação.

Em setembro de 2000, um grupo de empresários** constituiu uma sociedade com essa finalidade. O Instituto Geia (www.geia.org.br) nasceu com o propósito de atuar nas áreas de educação, cultura, saúde e meio ambiente, focando a sua ação na gestão de organizações já existentes, ajudando-as a melhorar suas condições de sustentabilidade, através de qualificação, capacitação e treinamento dos seus recursos humanos, ampliação do quadro de voluntários e buscando novas fontes de financiamentos para os programas em execução. Queremos levar a nossa experiência, acumulada em tantos anos de trabalho, nos mais diversos setores da atividade empresarial, para ajudar os que se dedicam diuturnamente às atividades de assistência aos mais necessitados, abrindo-lhes, em condições mais favoráveis, novas perspectivas de participação nos mercados competitivos.

Esses são os nossos propósitos. Para alcançá-los é que estamos juntos, e encorajando outros mais a se juntarem a nós.

*Adalberto Furtado, Amaro Santana Leite, Carlos Gama, Cristovam Silva, Eduardo Lago, Fernando Sarney, Haroldo Cavalcanti, Haroldo Gianzini, Henry Duailibe Filho, João Abreu, Jorge Murad, José Arteiro da Silva, José Ataíde, José Maurício Macedo, Júlio Noronha, Kennedy Terence, Luís Carlos Cantanhede Fernandes, Luís Fernando Renner, Manoel Alves Ferreira, Manuel Plantier, Marcos Milo, Nemésio Brandão Neves, Pedro Ticianel, Raphael Galletti, Severino Cabral, Valdeci Claudino, Vanda Torres.

*Jorge Murad, Presidente do Conselho Deliberativo do Instituto Geia

Artigo publicado no jornal O Estado do Maranhão