Esta despretensiosa recensão que hoje se encerra, chega ao fim favorecida pelo prestígio das duas publicações que constituem seu assunto. Refiro-me inicialmente ao livro póstumo de Josué Montello, intitulado “Areia do tempo: crônicas sobre a cultura francesa e seus autores”, belo volume de mais de 500 páginas, editado por iniciativa e com organização de Dona Yvonne Montello, viúva do saudoso escritor, como parte maranhense das celebrações, em 2009, do Ano da França no Brasil. Celebrações, diga-se em homenagem à verdade, que a rigor no Maranhão não houve, como seria de esperar de uma cidade que se preza de nascida e partejada por mãos gaulesas.
Franceses aqui promoveram uma aparatosa cerimônia de posse do lugar, da qual lavraram solene documento, de feitio constitucional pelo teor das normas fundamentais expedidas, de caráter pedagógico e com força coercitiva, mas que foram além disso, ao darem nome à nascente cidade.
Dizia Unamuno que “o nome é em certo sentido a própria coisa; dar nome às coisas é conhecê-las e apropriar-se delas: a nomeação é o ato de posse espiritual”.
E dúvidas não haja de que a assertiva de Unamuno aplica-se, qual uma luva, aos lugares que adquirem uma personalidade e até mesmo passam a trilhar um peculiar destino em função dos nomes com que são batizados.
O livro de Josué Montello, de excelente feição gráfica, reúne 180 crônicas, se não me enganei ao contá-las. Muitas dessas deliciosas páginas de prosa límpida e de clareza solar são verdadeiros ensaios literários, que se algum reparo merecem, correrá este à conta da brevidade.
Salvo engano de minha parte, o livro foi editado, porém até hoje não teve o lançamento a que seus altos méritos fazem jus. Trazendo em parte pré-textual apresentação de sua organizadora, Dona Yvonne Montello, e prefácio de Benedito Buzar, “Areia do tempo” é bem o testemunho vivo e eloquente do talento e da sólida cultura de Josué Montello, que com seu notável livro póstumo ofereceu a mais valiosa e permanente contribuição do Maranhão ao Ano da França no Brasil.
A outra notável publicação de 2009 foi o volume intitulado “Memórias e Memórias inacabadas”, que reúne as citadas obras do escritor maranhense Humberto de Campos, cujo 75º ano de falecimento transcorreu a 5 de dezembro último. Providência das mais acertadas enfeixar em um volume único esses dois livros que versam assuntos correlatos e, por sinal, correspondem à parcela da obra de Humberto que mais viva permanece, pelo interesse com que até nos dias de hoje as lemos.
Com mais esse lançamento de real importância, que leva número 13 da coleção Geia de Temas Maranhenses, o Instituto Geia, criado e dirigido pelo economista Jorge Murad, consolida e sobremodo alarga os relevantes serviços que vem prestando efetivamente à cultura maranhense. Entusiasta da edição sob comento, distribuí exemplares dela a diversas pessoas, notadamente a amigos residentes fora do Maranhão. Entre elas, a querida amiga Stella Leonardos, ateniense de muitos costados, pois que conta no rol de seus antepassados ilustres gregos e maranhenses não menos ilustres.
Stella é poeta, professora, tradutora, teatróloga, ensaísta, senhora de admirável erudição, detentora de seis prêmios literários da Academia Brasileira de Letras, presidente da Academia Carioca de Letras e autora de mais de cem livros publicados, dos quais quatro de temas maranhenses, que tive oportunidade e honra de editá-los.
Em resposta ao volume de Humberto de Campos que enviei a Stella Leonardos, respondeu-me ela com o poema a seguir reproduzido, com agradecimentos a mim e principalmente Humberto (Humbert / Humbold / “resplendor”, “brilho de gigante / bert e hun).” Ou “audácia”. Rosário Farâni e Mansur Guérios.
Para Jomar Moraes
Folheio a longe lembrança.
Meu olhar inda estudante
pousa num canto da Estante
de meu avô maranhense
Leitor de Humberto de Campos.
E o ver de uma sombra verde
segreda entre aquela obra.
Querendo contar a história
do Humberto que resplandece,
que já no nome resplende?
Sair a campo. Quem dera.
Analisar as “Memórias.”
Hesito, editor amigo.
Hesito sim, de saída.
Poderia eu fazê-lo?
Traduzir a audácia grande
em olhos irmãos de estrelas?
O órfão de pai, verso humilde,
Pobreza feita menino.
Mas seguir-lhe como os passos
tentando ser seringueiro,
confidente da Amazônia?
Ah Piauí do Parnaíba,
Belém, Belém do Pará,
Humberto pobre e bravio,
lidando em tipografia,
atraído pela força
do invencível jornalismo.
(Tão melhor contar-nos-ia
São Luís de seu filho indômito)
Depois, o Rio chamando-o,
o Rio dos Escritores,
o “Conselheiro” pseudônimo
de ágil, hábil, leve pena
tão louvável e louvada.
E pensar que foi um Poeta
pré-modernista, esse Humberto
de crônicas humorísticas,
e de contos, e de versos,
de críticas e de ensaios
irreverentes, diremos,
quando se fala em memórias.
Prezado editor amigo,
muito grata de verdade,
muito grata pela dádiva,
as “Memórias”, admiráveis
de mestre Humberto de Campos.
Além de monumental,
obra de suma importância.
Fraternalmente,
Stella Leonardos
Rio, 5/1/2010
Publicado no jornal O Estado do Maranhão, 3/3/2010.