José Louzeiro
Trata-se do melhor e mais competente lançamento editorial brasileiro, dos últimos tempos, na área da cultura popular. E que bom! Aconteceu nesta São Luís de tantas lendas, mistérios e encantamentos. Intitula-se Brinquedos Encantados e tem Albani Ramos como autor.
A luxuosa publicação, com belíssimas fotografias, aparece sob a responsabilidade do Instituto GEIA e contou com o apoio cultural do Banco Santos e da AMBEV (Companhia de Bebidas das Américas).
É um trabalho que merece destaque pois têm escasseado entre nós realizações dessa importância. A cultura popular anda tão por baixo que se mantém esquecida inclusive pelo Ministério da Cultura, indiferente ao que andam praticando certas escolas particulares aqui do Rio e outras tantas em São Paulo, na tentativa de despertarem, entre as crianças, o gosto pelos festejos do hallowen (Dia de todos os santos ou “Festa dos Bruxos”) que, nos Estados Unidos, ocorre a 31 de outubro.
Está provado, com este livro que o trabalho que o GEIA propõe é de fundamental importância. E Jorge Murad, presidente do seu Conselho Deliberativo, consciente disso, colocou Brinquedos Encantados como o primeiro volume da Coleção GEIA de Temas Maranhenses.
Esta obra de Albani Ramos, quero crer, cobre todas as manifestações da cultura popular maranhense e nos fala de algumas que eu, por exemplo, ignorava, como é o caso do ritual intitulado Banquete dos Cachorros. Uma toalha rendada é estendida no chão da sala cuja parede principal está ornamentada com quadros alusivos às santidades; duas velas (também no chão) se mantêm acesas e as “mães da Casa Fanti Ashanti”, todas negras, permanecem sentadas, uma ao lado da outra, em meditação profunda.
Dois ou três homens acionam os tambores em batidas suaves e espaçadas. Nesse momento os cães são introduzidos no recinto. As  refeições estão em pratos ricamente preparados. As ‘mães’ vestem-se de brancos e suas saias também têm as barras rendadas.
Outro ensinamento que o trabalho de Albani nos traz: o  Bumba-meu-boi é brincadeira para São João Batista, o severo profeta do Jordão que antes de chegar ao rio alimentava-se, no deserto da Judéia, de gafanhotos e mel silvestre.
A festa dos brincantes o alegra, no mês de junho, com suas matracas, zabumbas, maracás e pandeirões. No local de apresentação da “turma do boi” deve haver fogueiras para esquentar os instrumentos de percussão e meladinha (tiquira com mel de abelha) para afinar a voz dos que cantam lembrando o valente profeta e em defesa das nossas tradições.
Impossível não destacar, neste admirável trabalho de Albani Ramos, o que vem a ser o ritual da Festa do Divino Espírito Santo, pentecostes do povo. É celebrada no sétimo domingo após a páscoa e comemora a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos. Serve de marco da formação da Igreja e devira do Shavout judeu.
No Maranhão, como está no texto de Sebastião Duarte,”refazem-se as bases da sociedade, Recria-se um império, cujo cetro- o mastro- antes de erguido na praça pública é buscado e carregado pela multidão, pertencente a todos. Negras e negros retintos constituem um corte especial. Seus filhos vestem-se de mantos régios e são coroados imperatrizes e imperadores, cercados de mordomos, aias e vassalos. Um “ Colégio de Sacerdotisas” – as caixeiras do Divino – detentoras dos segredos de seu culto, cantam e tocam os tambores – as caixas- numa cadência que transmite a sensação de um ciclo atemporal, uma região primeira que recria o homem e a natureza em sua perdida unidade”.
Uma outra lição da história popular que encontramos em Brinquedos Encantados é a celebração de São Bilibeu, o santinho assanhado, calunguinha de breu que Sebastião Duarte assim define: “Bilibeu, São Bilibeu, ou Santo Horácio, desembocou neste lado do mundo, na casa de Antero Roxo, em festa de Carnaval, num lugar chamado Santeiro, município de Viana, na Baixada Maranhense. Mama nos ‘peitos apojados das  mulheres alheias’, depois de lhes garantir a mais impossível gravidez. Veste-se como homem, mas não tem preconceitos: também aparece como mulher”. Bilibeu é santo em Terreiro de Mina, conhecedor dos mistérios da fertilidade. Colocado no altar –dentro de uma caixinha de madeira – ele recebe preces, ladainhas e presentes.
A proposta que Albani Ramos conseguiu concretizar é dessas coisas memoráveis que merecia destaque na mídia nacional, se esta estivesse preocupada com nossos valores culturais. A obra vem acompanhada de um prefácio do ficcionista poeta e membro da Academia Brasileira de Letras José Sarney e textos do ensaísta e membro da Academia Maranhense de Letras Sebastião Moreira Duarte.
Nove pesquisadores compuseram a equipe de Albani: Ananias Martins, Izaurina Nunes, Jandir Gonçalves, Lenir Oliveira, Marise Barbosa, Michol Carvalho, Mundicarmo Ferreti, Rafilza Aranha e Vera Salles.
O precioso livro que se fecha com o calendário das festas populares no Maranhão, estabelece abrangência, ao lembrar que brinquedo e brincadeiras se confundem.
Conduzida por mãos cuidadosas, a obra registra nomes e funções de todos os profissionais que fizeram o trabalho acontecer: a Jorge Murad coube a supervisão editorial; a edição de imagens ficou por conta de Albani Ramos e Rafilza Aranha; a revisão devemos a Izaurina Nunes e Marcy Junqueira; a revisão dos textos em inglês coube a Regina Stocklen; pela tradução para o inglês respondem Sarah Bailey e Isabel Murad, Burbridge, enquanto Elisa Betanor Etcheverry cuidou da versão para espanhol. Projeto gráfico e editoração eletrônica Ricardo Ohtake, Ligia Pedra, Mônica Pasinato, Mariana Dreyfuss e Marcos Dalzoto. Fotolitos e impressão por conta da Pancron.
Publicado no jornal O Estado do Maranhão, 12/12/04.