Antonio Carlos Lima, Jornalista
Reclama atençãoo de estudiosos o fato de que, há quase quatrocentos anos, ao tentar convencer os portugueses a colonizar o Maranhão, “o melhor do Brasil”, tenha o capitão Simão Estácio da Silveira dirigido a sua Relação sumíria, publicada em Lisboa em 1624, não aos financistas exploradores das riquezas e maravilhas que jurava possuírem esses “imensos espaços de terras incultas” – mas “aos pobres de Portugal”. Os mesmos pobres que, nos anos iniciais da colonização, seriam notados por viajantes menos deslumbrados com o paraíso descrito por Silveira em sua peça de propaganda e que, trás séculos depois, ainda recheiam planilhas, estatísticas e teses acadêmicas, e dão substância a discursos demagógicos em período eleitoral.
Em 1770, quando a Companhia do Comércio, aqui instalada pelo Marquês de Pombal, havia muito introduzira o Maranhão no mercado internacional, com a sua nascente agricultura de exportação, o lavrador Valério Xavier Campelo, rico plantador de algodão nas margens do Itapecuru, fez uma representação ao próprio monarca, o Rei Dom José I, de Portugal, denunciando o enorme descompasso entre o progresso da colônia e as multidões de despossuídos. Campelo descreve a nossa realidade social e econômica, mas quem melhor o faz, anos depois, é o Secretário Geral da Província, Joaquim José Sabino, na Memória redigida em 1786 á Secretaria de Estado da Marinha e Ultramar. Ele fornece regras de “bem administrar o Maranhão” e não esquece os pobres que aqui, “faltos de toda instrução que viviam com negociantes portugueses, ingleses e franceses, envolvidos nos negócios do algodão e no “no comércio de artigos de luxo.”
Os manuscritos da representação desse obscuro lavrador e da Memória do capitão Sabino foram descobertos casualmente nos arquivos da Biblioteca da Ajuda, em Portugal, pelo historiador e diplomata gaúcho Milton Torres da Silva. A leitura desses documentos foi o ponto de partida de uma tese de doutorado que defendeu há trinta anos na Universidade de São Paulo e de um livro fascinante que acaba de publicar sobre importante período da História do Maranhão (O Maranhão e o Piauí no espaço colonial. Instituto Geia, 2006). O livro, que transcreve os manuscritos, constitui precioso ensaio sobre a vida maranhense entre os séculos XVIII e XIV, no contexto de uma realidade econômica transnacional, em que o Estado colonial do Norte é visto no universo da expansão do capitalismo europeu e da consolidação do domínio português na América.
Amparado em rica bibliografia e flagrante erudição, Milton Torres focaliza a experiência do Maranhão, naqueles tempos, como mercado exportador em larga escala, com a ressalva de que a riqueza proporcionada pela Companhia do Comércio, responsável pelo primeiro surto de desenvolvimento da colônia, na verdade escondia o quadro de miséria extrema em que se debatia a grande maioria da população.
Os manuscritos de Campelo e Sabino e outros documentos citados por Milton Torres têm em comum conselhos vários sobre como bem governar o Estado – o que torna oportuna a publicação desse precioso ensaio em período eleitoral, quando políticos sem plataformas costumam citar os pobres. Na carta que escreveu a Joaquim de Mello e Povoas (o sobrinho que fizera governador do Maranhão) o Marquês de Pombal ensina “a arte de um feliz governo”, e prescreve: “Não consinta violência dos ricos contra os pobres; seja V. Exa. defensor das pessoas miseráveis, porque de ordinário os poderosos são soberbos e pretendem destruir e desestimular os humildes. Esta recomendação é das leis divinas e humanas”. O próprio Sabino já admitia que muito do que prescrevia às autoridades reináis poderia ser útil a qualquer tempo. “Ao presente, é necessário, e, para um distante futuro, ficam os políticos vindouros para poderem considerar e formar os planos então necessários.”
Além do prazer que proporcionará a leitores exigentes, o livro de Milton Torres poderia, por esse e outros exemplos, prestar-se a serventias imprevistas, como oferecer a políticos sem plataforma a chance de encontrar, nos conselhos aos governantes dos missivistas coloniais, as bases de um programa administrativo que, definitivamente, promova o desenvolvimento e elimine a pobreza. O risco é o de que, após uma consulta apressada, essa categoria de leitores venha a apontar como verdadeiro culpado por tão persistente situação ninguém menos do que Simão Estácio da Silveira. Haveriam eles de deplorar o fato de que, ao redigir a sua Relação Sumária das cousas do Maranhão e terras circunvizinhas, na qual promete aqui o paraíso terrestre, tenha o velho capitão dedicado-a justamente aos “pobres de Portugal”. Mas essa é outra história.
Artigo publicado no jornal O Estado do Maranhão, 16/04/2006,