Entrevista de Eliezer Batista aos jornalistas Luiz César Faro e Claudio Fernandez, publicada na edição nº 51 da revista Insight Inteligência

Qual é, hoje, a grande fronteira do desenvolvimento? Como o Brasil está nela?

Temos progredido em alguns pontos já conhecidos e mencionados, como a estabilidade monetária, a inclusão social e o fortalecimento das instituições democráticas. Mas avançamos muito pouco em educação. Ainda se fala muito de alfabetização, ou seja, estamos aprisionados a um conceito antigo, uma visão jesuítica sobre o problema. A alfabetização, em termos gerais, é parte, mas jamais o todo. O que é preciso questionar é o nível de avanço e de modernidade da educação dos professores que vão transmitir esse conhecimento para os alunos do futuro. É a velha pergunta: quem ensina aos mestres? Ao falarmos de educação, eu simplesmente diria: copiem a Coreia. A Coreia do Sul está no limite de tudo, seja da educação formal, seja da pesquisa acadêmica, seja das ciências-ponte para o futuro, como nanotecnologia e nanobiotecnologia. É o resultado de uma profunda reestruturação que começou logo após a Segunda Guerra Mundial e a cisão das Coreias. Tornaram por lei o ensino básico obrigatório e, o mais importante, gratuito. O governo passou a incentivar a pesquisa. O país foi pioneiro na implantação de internet de banda larga em todas as escolas primárias e secundárias. O Estado centralizou a gestão e supervisão das escolas do jardim de infância ao terceiro ano secundário. Resultado: hoje, a Coreia do Sul ocupa o quinto lugar no ranking do Programa Internacional da Avaliação de Alunos elaborado pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). O Brasil, por sua vez, ainda tem lapsos terríveis em seu modelo de educação. O ensino médio visa ao vestibular, como se ele fosse a finalidade, quando não passa de uma mera ferramenta de triagem. Ainda mantemos cursos técnicos para profissões anacrônicas. Mas não precisamos reinventar a roda. Eu repito que basta observarmos o que a Coreia fez e adaptarmos ao Brasil. Em quatro décadas, um átimo de tempo na história de qualquer país, ela multiplicou por 12 o número de estudantes no ensino superior. São cabeças capazes de formular e executar, espalhando-se rapidamente por diversos setores da economia. A Coreia é hoje referência para qualquer país em desenvolvimento tecnológico. Os avanços dos sul-coreanos na área médica, que são enormes, estão umbilicalmente ligados ao salto na educação. A Coreia domina o que há de mais sofisticado no segmento, como o desenvolvimento e a produção de vacinas. Os efeitos do ensino demoram um certo tempo. A educação não é uma posologia para o dia seguinte. Mas urge o momento em que teremos de repensar o Brasil de amanhã, missão que teimamos em adiar continuamente. O diacho é que há um gap para que os avanços na educação surtam efeito na economia. Nas primeiras vezes em que fui à Coreia, nos anos 50, o país era um montão de ruínas, mas já havia um compromisso rígido com a educação. Como resultante, a mentalidade de todo o coletivo se modernizou. É justamente o oposto do que ocorreu com o Japão. Em certa medida, os japoneses estão ficando para trás, muito em razão do respeito às tradições dos samurais e das virtudes prussianas herdadas da cultura alemã. antes da Segunda Guerra.

Mas como trazer estas experiências para a realidade brasileira?

Temos de criar uma nova cultura. Não me refiro à literatura, música, artes, enfim, à erudição em geral. O pilar da cultura e, portanto, da civilização moderna é a ciência e a tecnologia. Como diria aquele marquetólogo americano, é a pesquisa, estúpido. Não a pesquisa do bode expiatório, como costumava dizer Roberto Campos, a única que sabíamos fazer. Estou me referindo à pesquisa como sinônimo de inovação, de criação. Precisamos, por exemplo, dar prioridade à matemática e à física. Aliás, temos de ir além e trazermos a educação para o estágio da física quântica da geometria fractal (Mandelbrot). São as fronteiras das quais insistimos em nos manter distantes. A aproximação moderna deve dar à pessoa o valor da função no tempo (Teoria do Caos). Daí pode se ver a importância da velocidade da tomada de decisões, algo que deve estar ligado ao processo de formação da mente das pessoas (mindset) desde a infância. NO Brasil, no entanto, ainda se embarga um projeto de US$ 3 bilhões por causa da formiga de cauda amarela. É uma aberração. Eu acho algumas coisas incríveis no Brasil. E agora não estou me referindo especificamente à educação, não obstante tudo ter a ver com educação. O fato de nós só estarmos discutindo a posição do Brasil como exportador de commodities, especialmente para a China, e ninguém dizer uma vírgula sobre o valor estratégico e a disputa que existe no mundo em torno das terras raras, é um espanto. Ainda mais quando sabemos que o nosso potencial nesses minerais raros é grande e eles estão na ponta de desenvolvimento. O ítrio, por exemplo, dá a cor vermelha na tela de TV. A tecnologia touch screen, do sofisticado iPad, só funciona com um produto mineral, o ITO (óxido de índio e estanho), cujo quilo vale mais do que toneladas de minério de ferro. Mas gira a lusitana e voltamos ao princípio da necessidade de mudança na nossa cultura de educação, ainda predominantemente literária, uma herança da colonização ibérica. A erudição é essencial, mas não se começa uma casa pelo telhado. É preciso construir uma nova Gestalt educacional e, a partir daí, massificar o ensino por meio de processos, técnicas, conhecimentos e currículos modernos. Como estou ficando um ancião monotemático, repito pela enésima vez: olhem com lente de aumento para o que fez aquele tal país asiático supracitado.

Em meio a esta necessidade de refundação do ensino no Brasil, a disponibilidade financeira é uma variável determinante. De onde virão os recursos?

Finanças não são um fim em si, mas um instrumento do processo. No Brasil, ainda confundimos muito finanças com economia. Economia é o conjunto de todas as variáveis. As finanças são apenas um instrumento para se erguer um projeto. A transcendência da educação, assim como a viabilização dos recursos necessários para esse salto, é uma decisão de governo. Outro exemplo pertinente é o da Espanha, único país da Europa que seguiu o modelo coreano. O Estado decidiu transformar o desenvolvimento científico em um dos pilares da educação. Hoje, trata-se de um país com avanços invejáveis em atividade na fronteira do conhecimento, como a biomedicina. Barcelona á a capital da medicina de oftalmologia no mundo. O governo espanhol passou a buscar parcerias internacionais. Recentemente, recebi uma carta da ministra da Ciência e da Inovação da Espanha, Cristina Garmendia Mendizábal, para visitar o país e discutir possibilidades de cooperação nas áreas de ciência, tecnologia e inovação. Empresários brasileiros têm sido contatados no mesmo sentido. A Espanha só não está em uma posição melhor por ter chegado atrasada no mercado. Eles não conseguiram dar saída comercial, não na escala desejada, aos avanços tecnológicos. Fora que o país ainda está muito engessado aos pesados benefícios sociais. O melhor emprego do mundo é ser desempregado na Espanha. E teve ainda a farra do endividamento inebriante com que alguns países festejaram o primeiro e último baile da União Europeia. Irlanda, Grécia, Portugal e Espanha, para falar dos mais votados, tomaram uma taça de champanhe que logo se metamorfoseou em cicuta. E o triste é que os espanhóis estão com o capital humano tinindo, pronto para subir degraus. Vão ter de descer alguns andares.

Há algum tempo o senhor tem repetido recorrentemente a importância de o Brasil investir em atividades identificadas às novas fronteiras do conhecimento, como, por exemplo, a produção de equipamentos médicos de ponta. Em que estágio nos encontramos neste processo?

Proporcionalmente aos países congêneres que estão na primeira fila da sala de aula, nosso estágio é o da Idade Média. Não fizemos a substituição de importações. Estamos atrasados. Repito: precisamos mudar o conceito de educação de base no Brasil. Ainda estamos no tempo da matemática da Dona Chiquinha. No mundo em que as físicas derivadas da física nuclear (quântica, partículas e alta energia) começam a ter aplicações práticas já comercializáveis (nanotecnologia), vemos que ainda estamos bastante longe desse estágio. Com a colaboração de microscópios superpotentes eletrônicos e sua combinação com a graphic computing, é possível se ver elétrons e controlá-los, orientá-los, direcioná-los, Isso é uma brincadeira diabólica. Foi dessa forma que se desenvolveram medicamentos contra a gripe suína. Ou seja: os resultados dessa faixa de conhecimento já estão na fase de aplicação prática. Esta é a fronteira que ainda precisamos alcançar. O que temos no Brasil são algumas experiências isoladas. Uma das mais brilhantes foi conduzida pelo médico alemão Hans Jürgen Dohmann, pai do atual secretário de Saúde do município do Rio de Janeiro, Hans Dohmann. Com um grupo de trabalho, que incluiu o próprio filho, ele começou a fazer pesquisas de cúlulas-tronco no Hospital Pró-Cardíaco e, daí, derivou para a terapia gênica. Por meio de uma parceria com uma companhia científica belga especializada em terapia gênica, este projeto resultou na criação de uma empresa em Petrópolis, que tem uma série de clientes no exterior.

O Brasil combina problemas do século XVII e do século XXI. Ao mesmo tempo em que estudamos um plano nacional de banda larga temos centenas de municípios sem rede de esgoto. Como um país com tamanha dispersão de desenvolvimento pode acampar na última fronteira?

Com educação moderna. A Índia está fazendo isso. Decidiu copiar a Coreia do Sul há algum tempo. Parece que estou obcecado, mas temos de bater na mesma tecla. Antigamente, éramos chamados de Belíndia, um híbrido de Bélgica e Índia. Acontece que a Índia deu um salto para a frente, e nós, para trás. Somos um sapo em permanente marcha a ré. E olha que os indianos têm problemas muito maiores do que os nossos, de diferenças de raças a distinções de clima, passando por regurgitações do magma social permanentes. No Brasil, existe uma mobilidade vertical da sociedade maior, sem comparação com a realidade indiana. No entanto, para dar os passos que a Índia deu na área educacional, é necessário disciplina. Tivemos, sim, avanços na educação, mas são pockets de sucesso, não é o suficiente para um processo de massificação do ensino de qualidade. É preciso estimular o interesse da criança e do adolescente pelo aprendizado. Quantas pessoas que conhecemos lêem com regularidade? Como a juventude não lê mais no sentido clássico da leitura, ela aproveita outras formas de apreensão, como TV e internet. Basta ver como existe uma queda global no mercado de papel, com impacto imediato na indústria de celulose. Os jornais impressos estão migrando para o meio eletrônico. Essas transformações do meio de propagação do conteúdo, assim como os novos paradigmas computacionais, a fractalidade, a definição mais precisa das áreas em que se necessita um reforço no contingente especializado vis-à-vis sua sinergia com o desenvolvimento, tudo isso são elementos para o caldeirão da nova epistemologia da educação.

Bem ou mal, nós cumprimos algumas etapas em relação ao passado mais recente, como a inclusão social, a extinção da inflação e a estabilidade democrática. O senhor não acha que era hora agora de a área da inovação virar prioridade de Estado?

Não só do estado, mas também da iniciativa privada, ambos trabalhando em parceria. O mais importante, no entanto, é o tipo de raciocínio. Antigamente, o pensamento predominante nas decisões era o linear, pontual. Hoje, temos de privilegiar o trabalho sistêmico-holístico. O Brasil, no entanto, ainda é o país da fragmentação do pensamento e das decisões. A educação tem de ser uma política de Estado, mas com o planejamento simultâneo de todas as variáveis. Isso vale para o próprio ensino. Noções básicas de medicina, com aplicações práticas no cotidiano, deveriam fazer parte do ensino de base. Estamos falando de coisas simples, mas fundamentais para um país com realidades sociais ainda tão díspares. Para o aluno de uma área mais pobre, é essencial saber que a água oxigenada, 10% de volume, é o melhor bactericida que existe. Ele não precisa gastar uma fortuna com um dentifrício. E ainda fica com uma boca beijável o dia inteiro.

Por falar em fronteiras ainda distantes, como o Brasil está em relação a discussão e adequação às medidas climáticas?

Avançamos muito pouco. O estudo das mudanças de clima também não deve ser visto como fim, mas como um instrumento científico para o amplo conhecimento. A evaporação da água dos rios da Amazônia, por exemplo, tem impacto nas chuvas em São Paulo. E esses efeitos vão até o Rio Grande do Sul, batem nos Andes e descem. Isso está provado por estudos recentes e mapas diários gerados por supercomputadores. A seca na pampa úmida argentina é decorrência do desmatamento na Amazônia. O curioso é que nós deveríamos ser os maiores interessados nessas questões, mas ainda tratamos desses problemas como se, em certa medida, não nos pertencessem. Se a temperatura média de São Paulo subir dois graus, a cultura de café no estado vai ser duramente afetada. Praticamente se inviabiliza. A produção vai toda para as zonas frias e perderemos uma importante atividade econômica. Onde está a fronteira? Quantas pessoas no país estão se dedicando com afinco a essas questões pelo lado científico? Não estou querendo girar a metralhadora de críticas para todos os lados, mas é preciso chamar a atenção com vigor para coisas absolutamente necessárias que estão submersas na ignorância nacional. O Brasil teve um sacolejo na área social. Precisa de outro na área de educação e tecnologia.

Partindo-se da premissa de que é necessário buscar a nova fronteira, o conceito original de sustentabilidade já pode ser visto como ultrapassado e decadente?

Esse conceito está defasado, capenga. Serviu para um determinado momento, mas hoje é algo raso. Na verdade, a concepção do que se entende como desenvolvimento sustentável foi muito intuitiva. Vamos pegar como exemplo Carajás, um dos primeiros grandes projetos no Brasil regido pelo conceito da sustentabilidade. Todo o empreendimento foi feito com a preocupação de se harmonizar o econômico e o social, de forma simultânea e indissolúvel. Adquirimos uma área com mais de um milhão de hectares e investimentos de quase US$ 400 milhões na construção de uma cidade, Parauapebas. Para a ocasião, era o que havia de mais avançado em termos de sustentabilidade, mas de abrangência restrita. Cuidamos apenas do impacto do nosso projeto, praticamente dos muros para dentro. O entorno ficou exclusivamente sob a responsabilidade do poder público. Parauapebas foi concebida com rede de saneamento básico, energia elétrica, plano de urbanização, hospital e escola. Mas a área foi projetada para cinco mil habitantes. Hoje, a população é composta por mais de cem mil pessoas, com indicadores sociais distantes do desejável. Por que isso? Porque não cuidamos do entorno.

Mas que fim levou o triângulo da integração simultânea da economia, do social e do ambiental? O que fica no lugar da sustentabilidade?

É a gestão integrada do território, que se baseia em uma visão sitêmico-holística do problema. Deixamos a parte e avançamos para o todo. A gestão integrada contempla não apenas a área de abrangência do projeto, mas também o seu entorno. Todos os impactos sociais e ambientais de um determinado empreendimento são previamente mapeados. Já na origem, o projeto contempla soluções para os problemas identificados nas mais diferentes vertentes, como uso racional dos recursos naturais, planejamento habitacional, incentivo a novas atividades econômicas na região, geração de empregos, saúde, educação, segurança. Tudo isso, repita-se, a partir de uma visão integrada, mais abrangente. Cria-se um amplo cinturão de desenvolvimento – e o sustentável, aqui, é mera redundância. O grande mérito da gestão integrada do território á ampliar o raio de ação dos benefícios gerados, que, até então, ficavam circunscritos a um determinado cluster. Este novo conceito de gestão integrada começa a estar vinculado, inclusive, ao próprio custo de financiamento do projeto. O BNDES, por exemplo, já contempla a vinculação de futuros empréstimos ao cumprimento dessas regras. Ou seja. O conceito de sustentabilidade sempre está embutido no contexto do desenvolvimento. Não devemos confundir desenvolvimento com crescimento. O crescimento pode trazer a reboque efeitos negativos. A partir de agora, deve-se perseguir o desenvolvimento. Isto é, a tecnologia e a inovação, ou seja, a aplicação prática do conhecimento. Se não tiver a ciência, a prática será desastrosa. Grandes saltos econômicos estão intimamente ligados à noção de ordem do território. O desconhecimento é a anticiência, a antitecnologia, o antidesenvolvimento. Não se deve, por exemplo, construir uma estrada que vá afetar o lençol freático. Isso tem impacto não apenas local, mas em grande abrangência. Problemas integrados devem ser equacionados com soluções integradas.